A figura do psicólogo é sempre uma figura temida. Tanto pela eminência do autoconhecimento (e nunca se sabe o que podemos encontrar dentro de nós) quanto pelo estigma que viemos carregando durante toda nossa trajetória. Sendo assim é realmente muito complicado querer que todos aceitem nossa profissão de braços abertos como são aceitos os players, coaches, streamers, jornalistas.

Mas o trabalho do psicólogo dentro do E-sport (chamo assim pois o trabalho deste profissional ainda não é reconhecido pela categoria e digo com propriedade que não nos encaixamos em um único segmento que atualmente possuímos no rol de atuações do psicólogo), é um trabalho com base na análise comportamental, conceitos de psicologia do esporte em si, área organizacional, clínica e educacional. Trabalhamos com um mix de várias técnicas pois, atualmente não temos uma que nos supra de forma plena.

O trabalho da psicologia com jogos eletrônicos não é nova, é um amor de longa data. Nos primórdios os psicólogos eram chamados para dar ao jogo sua classificação indicativa e uma espécie de design dependendo do público alvo. Sabemos também que, apesar da relutância a utilização de jogos eletrônicos para aprimoramento de capacidades cognitivas ou apenas estímulo de aprendizagem já vêm sido utilizado há muitos anos.

Lembro na minha época de colégio (ainda nos anos 90) quando íamos no “Laboratório de Informática” para aprender a utilizar a nova ferramenta e quando passamos a nos estabilizar com o dispositivo fomos introduzidos a maravilhosos jogos como a de um ratinho que explicava geometria. Posteriormente haviam jogos para aprender história e geografia e me lembro o quão excitante era “brincar” com aquilo. Hoje, como profissional, vejo muito mais além… Este foi um trabalho multidisciplinar voltado para a aprendizagem porém ainda de forma muito despretensiosa.

Em meados de 1998, com o lançamento da primeira revista internacional de CyberPsicologia e comportamento Online estávamos realmente inseridos nesse cenário. Não estávamos apenas indicando classificações etárias mas também podíamos nos comunicar de forma online expandindo o nosso universo e o do próximo consequentemente. Podíamos estudar o comportamento de pessoas que não estavam em nossa sala, em nosso consultório, fechados entre quatro paredes. Arrisco a dizer que foi uma das primeiras vezes em que saímos de um ambiente controlado e para nós psicólogos foi um grande passo.

Mas nem tudo são flores, ainda hoje o tratamento psicológico e a inserção do psicólogo em qualquer área é tida como descartável ou substituível quando não é. E a culpa é exclusivamente da nossa classe que não foi capaz de levar para frente a necessidade disso. E tudo na psicologia é ao mesmo tempo muito novo (se relacionarmos outras profissões) e muito antigo (se relacionarmos ás constantes mudanças do ambiente e do ser humano). Talvez não tenhamos mesmo como acompanhar este processo.

Hoje atuamos dentro dos clubes de forma bem abrangente, como selecionadores, treinadores, psicólogos do esporte e de forma clínica para melhorar o desempenho e diminuir os conflitos dentro dos times possibilitando menor estresse durante os treinos e partidas otimizando assim o desempenho do player. Temos também programas de inclusão de jogadoras do sexo feminino e pessoas com deficiência. Porém, como dito anteriormente é um trabalho multidisciplinar e para que funcione necessitamos da colaboração de todos. Desde apoio da direção até a adesão da equipe técnica e players. Assim, podemos minimizar esses conflitos desnecessários que têm sido gerados dentro das instituições mas isso só acontecerá quando nossa profissão for compreendida como necessária e aqueles que estão no ramo atuem de forma profissional.