Desabafo de uma psicóloga gamer no mundo dos meninos!

Não é de hoje que eu passo longos períodos na frente de uma máquina. Nasci em 1985, e nesta época meu pai já trabalhava com sistemas no SERPRO (Serviço Federal de Processamento de Dados) e tínhamos um computador em casa. O que mais me chamava atenção naquela caixa branca com tela preta e pontinhos verdes era o poder de proporcionar momentos felizes com meu pai. Nós sentávamos e ficávamos horas jogando um joguinho de kung fu. Anos depois tivemos um ATARI e nossas noites eram embaladas pelo Pac Man, Snowboard e outros jogos da série. Quando fiquei mais velha, ganhei do meu avô meu primeiro console, um Super Nintendo roxo e branco.
Minha família por parte de pai é com base matriarcal (meu avô faleceu de câncer muito cedo e minha avó assumiu a criação dos filhos e atividades da casa), na casa da minha mãe éramos em 4 mulheres e 4 homens, então não havia discordância nem briga, todos tinha sua vez. Nossas brincadeiras não eram discriminadas por sexo, os meninos ajudavam no desfile a as meninas lutavam e jogavam vídeo game. Todos de família católica fervorosa.
Para mim, ser tratada com diferença por causa de gênero foi no colégio, pois, eu não tinha o direito de fazer as mesmas brincadeiras que os meninos porque para mim era feio. As filas e brincadeiras eram sempre menina contra menino. E tudo piorou quando com 9 anos sofri um acidente de carro e ganhei de presente uma enorme cicatriz na testa. Eu era chamada de alien, aberração, feia… e com o tempo e stress ganhei muito peso, além de feia eu era gorda. Mas nada disso tirava minha vontade de fazero que eu queria.
Em casa eu entrava no game e só saía quando minhas funções vitais estavam prestes à paralisar (comportamento aprendido pela minha irmã com maestria kkkk); ali eu esquecia do mundo e era outra pessoa. Na adolescência eu jogava RPG e discutia games com os meninos, os outros não me interessavam. Eu era tachada por minhas colegas de “Cata Treco”, sem problemas.
Na faculdade deixei de lado a vida dos jogos, a vida de balada, a vida de namoro, a vida em si kkk foram 5 anos quais me dediquei ao estudo (nunca saí pra jogar truco) e me formei psicóloga. Aí veio namoro sério, eu e meu atual marido passávamos horas jogando na Lan House com nosso grupo de amigos, o meu preferido era Battlefield Vietinã. Ter em casa um PC pra jogo era impossível, monta lan em casa então, nunca, eram trambolhos maiores que nossa cama. Mas anos depois vem emprego, casa pra cuidar, marido e deixei um pouco de lado (mas o marido nunca, não que ele me proibisse de jogar mas nunca entendeu que tínhamos outras prioridades.)
Depois de muitos anos de reclusão eu resolvi colocar um foda-se nessa história toda. Não arrumo mais a casa sozinha (meu marido entendeu a necessidade de dividirmos as tarefas) e não me prendo mais e achei que com meus 30 anos era hora de voltar a fazer aquilo que eu sempre gostei, jogar. Além disso, como psicóloga, busco cada vez mais unir os dois mundos pois sei que essa união fará diferença no futuro mas tentando parceria com alguns grupos, pude sentir uma rejeição forte (muitos sequer respondem e-mail, ou mandam e-mail combinam alguma coisa e simplesmente somem do mapa o que é terrívelmente mal educado).
Meu marido joga com um grupo muito bacana, foi com eles que voltei a jogar BF4 no PC. Nenhum deles é menor de idade, todos são crescidos e sabem o que fazem. Só que como tudo que fazemos na vida, quando deixamos de treinar ficamos enferrujados. E eu claramente, tive que voltar todas as casas e reaprender a jogar. O primeiro obstáculo que encontrei foi a paciência do meu marido, curta e grossa. O nível de rage dele é absurdo e difiilmente ele consegue me passar orientações. Nisso o pessoal do TS (team speak) ouve tudo e provavelmente pensam que nós somos loucos e eu incompetente. Várias vezes fui posta pra fora do server (especialmente Clan MAD que é muito cheio) e era balanceada de grupo mas eles não. Percebi que a causa muito provável é meu nick nada masculino (NanneMicheletti). Outra jogadora com nick unissex não apresentou tantos kickoffs.
Com o tratamento recebido pelo meu marido e nossa troca de “elogios”, as brincadeiras no grupo aumentam, e a sensação de exclusão também. Eu nunca tinha passado por isso durante anos jogando com meninos. Agora em plena entrada de 2016 tenho que me deparar com esse tipo de comportamento comigo? Depois perguntam: “Porque você está brava?”, “Porque não quer mais jogar?”, “Está de TPM?”, “Você não gosta de jogar?”… Ninguém entende que jogar tem que ser divertido para todos, não para um só, muito menos tenho que diminuir um parceiro para me sentir feliz. Mesmo em jogos profissionais não se deve ver o oponente como inimigo, porque isso acontece entre homens e mulheres no for fun? Se é assim que tem que gostam, prefiro dormir :/
Outra constatação, quando procuramos Gamer Gilr na internet, achamos figuras de meninas magras com roupas minúsculas jogando ou posando com consoles para fotos. Me diga você, querido gamer, você aí atrás do vídeo é um cara sarado, de barriga tanquinho e cabelos sedosos? Joga de cuequinha grudada no seu traseiro durinho e trabalhado? Claro que não. Então não me obrigue a ser o que você não é! Essas modelos são apenas modelos, não são gamers de verdade. Não digo que mulheres gamers sejam feias, mas nenhuma joga de cinta liga meu amor, a gente senta com camiseta ou moletom rasgado e calcinha de vó! Eu não sou gamer pra arranjar marido/namorado, tô aqui pra jogar e pronto! Então cresçam e parem de palhada! Cada um no seu quadrado, literalmente!