Segundo Alves (2009) o lúdico exerce grande fascínio sob os homens desde os primórdios das civilizações e a importância dela para o desenvolvimento humano e aprendizagem, vai muito além dos limites da modernidade. Sendo assim, os jogos eletrônicos também passaram a fazer parte das ferramentas educacionais. Com o intuito de educar de forma divertida e interativa, passaram a tomar um grande espaço dentro do âmbito acadêmico. Mas como os games podem auxiliar no processo de desenvolvimento humano?

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Imagem: Me. Tiago Eugênio / Arquivo pessoal

Hoje conversaremos com um profissional apaixonado que tem se dedicado à pesquisa e desenvolvimento destas ferramentas que podem ser muito poderosas dentro e fora das salas de aula.

Dentre algumas de suas atividades, o Me. Tiago J. B. Eugênio é biólogo e mestre em Psicobiologia. Já na área de games, é designer e ainda coordena um curso de Pós-Graduação em Games e Tecnologias da Inteligência aplicados à Educação. No final de abril de 2016 ele lançou seu primeiro game, o Uba (Veja Aqui)

“Viver uma situação é muito mais significativo que uma aula expositiva. Acredito no poder da experiência e é isso que um game faz de maneira eficiente, possibilita uma aprendizagem contextualizada, desafiadora e divertida.”  – Eugênio, Tiago (2016)

O Uba é um aplicativo para que as crianças possam estimular de uma forma prática e divertida, a capacidade de distinguir alimentos saudáveis dos não saudáveis. O aplicativo conta com muitos estímulos sonoros e visuais, e nele aprendem que comer errado pode trazer consequências bem desastrosas.

Leia a íntegra, abaixo:

1 – Quando e como você idealizou o Uba?

O projeto começou a ser desenhado no início de 2016. Neste período, mudei de forma significativa meus hábitos alimentares. Troquei o refrigerante pela água com gás, deixei de frequentar Fast Food, adquiri o hábito de comprar mais frutas e legumes. Somado a isso, sou professor de ciências e biologia e dentro da grade curricular abordo diversos temas, entre eles a alimentação saudável. Tenho ciência do efeito dos hábitos sobre a nossa saúde, mas é difícil modificá-los por questões contextuais, por exemplo, o bombardeio de propagandas comerciais de alimentos, bem como por razões evolutivas, cujo processo lapidou um cérebro com preferências para alimentos ricos em gorduras e carboidratos. Meus alunos enfrentam os mesmos desafios que eu imagino.

Viver uma situação é muito mais significativo que uma aula expositiva. Acredito no poder da experiência e é isso que um game faz de maneira eficiente, possibilita uma aprendizagem contextualizada, desafiadora e divertida. A mecânica do Uba é muito simples, remonta aos jogos de consoles antigos, especialmente os de nave nos quais o jogador deve desviar dos obstáculos. A Jogabilidade também é limitada, é possível mover-se apenas para a direita ou para a esquerda. No entanto, durante o processo percebi que essa limitação foi importante para o design da experiência significativa do usuário no jogo. Dentro do universo dos games, o simples e o limitado não são ruins, na verdade as vezes é o mais recomendado a fazer.

2 – Creio que pela complexidade do projeto, você tenha precisado de auxílio multidisciplinar. Como foi isso?

Absolutamente. O apoio de outros profissionais foi essencial para o jogo ganhar mais vida. Minha preocupação maior foi com a temática. Assim sendo, contar com a ajuda de um Nutricionista me deu mais segurança. Acionei um amigo meu, Renan Vericondo, que trabalha na área e vive me falando sobre os alimentos. Ele me auxiliou em todo o processo, da escolha dos alimentos saudáveis e não saudáveis que caem, até aos power ups disponibilizados para os jogadores de acordo com o avanço nos níveis do jogo. Carol Ragognete, professora de Educação Infantil foi essencial no processo já que ela participa todos os dias do universo infantil. A arte do cenário, do personagem, do significado imagético dos power ups, tudo era analisado com ela a fim de buscar uma coerência com o universo da criança. Eu me preocupo bastante com a construção de sentido e escutar um profissional da área específica como ela me deixou também mais tranquilo. Além disso, a neuropsicopedagoga, Ana Lucia Hennemann me apontou caminhos mais tácitos para relacionar o jogo com a aprendizagem. Mostrei diversas vezes a jogabilidade e ela sempre me retornava apontando caminhos para exigir do jogador um exercício constante das funções executivas do cérebro, por exemplo. Esses insights foram sendo incorporados e aperfeiçoaram a estética, a mecânica e o sentido do game criado.

3 – Percebi jogando que quando o Uba come doces ele fica maior e mais lento, sendo assim o jogo se torna mais difícil, mesmo que escolhamos alimentos saudáveis, o que diminui sua “vida”. Como você chegou nesta problemática?

Isto faz parte da Jogabilidade propriamente dita. Eu precisava gerar dano ao personagem e, dentro da temática, o mais coerente a fazer seria associar à colisão dos doces. Acredito que um jogo com bom design precisa destacar as consequências das ações do jogador no curto e longo prazo. E é isso que desejei representar com o aumento do tamanho e diminuição da velocidade do personagem. Além disso, é isso que acontece na vida real com o indivíduo que se alimenta com frequência de alimentos não saudáveis: fica mais obeso, sedentário e, geralmente depois de anos, até de décadas, sofre as consequências disso. Problemas cardíacos, gástricos, renais, dentre outros, não aparecem depois que você toma um refrigerante ou come um hambúrguer. Mas a repetição desse hábito pode sim encurtar a vida do indivíduo, como apontam diversos estudos epidemiológicos de escalas globais. Dentro do Uba, este fenômeno tentou ser representado nas limitações do design proposto. Mas vou avisar, depois de um nível específico resolvi adicionar “vidas” extras, representado por corações, para o jogador. Acho que foi importante isso para melhorar a experiência do jogador e motivá-lo para ir além, conseguir mais dias de expectativa de vida.

4 – Como pais e professores podem fazer do Uba uma ferramenta de aprendizagem?

Eu, como estudante de design de jogos, não acredito que jogos devem ter como objetivo principal a aprendizagem. A diversão deve prevalecer. Por outro lado, como professor, o meu objetivo principal é justamente a aprendizagem. Pode parecer para alguns um conflito, mas para mim, na verdade, isso é uma solução. A utilização de jogos pelo professor e pais deve ser leve, não deve mirar exclusivamente a aprendizagem. Deixar a criança explorar, conhecer e jogar é fundamental. Afinal, jogo é um momento de fruição e bem-estar. Em minhas palestras sugiro sempre aos pais, antes de indicar ou comprar um determinado game para o filho, adquirirem miores informações sobre o jogo. É muito importante este processo para o responsável se posicionar como um mediador da aprendizagem durante a jogatina. Esperar que um jogo, por si só, cumpra uma função educadora é um equívoco. Pais e professores exercem papéis fundamentais para elaborarem perguntas sobre a experiência do jogo. No caso do Uba, por exemplo: “por que você acha que ao colidir com doces o seu personagem está “crescendo” ou ficando mais lento? Este é um ponto de partida muito mais motivador do que simplesmente chegar na sala de aula e dizer: “pessoal, hoje vamos estudar sobre obesidade” ou então para o pais, quando vê o filho preferir uma batata frita, alertar: “filho não coma a batata frita, por que isso lhe fará mal daqui alguns anos”.

5 – Qual sua opinião sobre a utilização de jogos eletrônicos como ferramenta para o ensino básico?

Sou um entusiasta. Como mencionei anteriormente, jogos oferecem experiências contextualizadas, desafiadoras e divertidas. Quer coisa melhor do que isso? Jogos são sistemas com regras limitantes e orientados para meta, são sistemas convidativos, nos quais o jogador participa, toma decisões e visualiza de forma instantânea as consequências de suas ações no jogo. Não há dúvidas que para a educação jogos com conectividade e focados no relacionamento social são mais eficientes, um exemplo valioso disso é o próprio Minecraft. Mas ele está longe de ser o único. Gosto muito de simuladores de cidade como o Sim City, por exemplo. Mais do que utilizar jogos, outra possibilidade interessante e que venho trabalhando também é a criação de jogos. O processo é muito rico e complexo, pois exige análise e entendimento por parte do aluno sobre o funcionamento de um jogo, da criação da arte, montagem dos sprites (elementos visuais) até a programação dos movimentos dos personagens.  É um passo importante para a autoralidade, na qual o aluno é um produtor de conhecimento, não apenas um mero consumidor. E olha que não acaba aí não: depois o aluno precisa testar seus jogos, vai ouvir comentário de outros alunos, aprender a discernir o que é legal e o que não é e tomar decisões, se implementa ou não as ideias ao seu projeto. É um processo bem interessante, iterativo e construtivo.

6 – Na sua opinião, existe algum perigo para as crianças que se envolvem com jogos eletrônicos na infância?

Há perigo para tudo. O excesso é um deles e eu não diria em relação somente aos games, mas em qualquer coisa. Beber água demais é um perigo, comer somente um tipo de alimento é outro perigo também. O perigo dos jogos eletrônicos na infância existe quando não se tem um adulto para fazer uma ponte entre o jogo e a realidade, acredito. Colocar a criança para ouvir sons engraçadinhos e interagir com bichinhos fofinhos pode satisfazer apenas o desejo de empresas que miram o consumo de seus produtos, ou ainda, de pais que querem na verdade se livrar de seus filhos. Em São Paulo, fico nervoso quando vou a um restaurante e vejo uma criança sentada na frente de um tablet jogando enquanto os responsáveis conversam, comem e até bebem cerveja. O uso dos jogos naquele contexto é para puro entretenimento e atua como uma ferramenta de exclusão da criança do universo de seus responsáveis. O perigo neste caso não está nos jogos, mas sim no uso que ele está sendo feito pelos adultos. Quanto às diversas temáticas dos jogos, me preocupa crianças pequenas em contato com jogos de FPS (First-person Shooter, tiros em primeira pessoa). Neste caso, reforço a importância do pai sempre conferir do que se trata o jogo antes de disponibilizar para a criança. Não basta ser pai e mãe, tem que participar.

7 – Podemos esperar mais projetos como este?

Com certeza. Estou finalizando um aplicativo com mais dois amigos. Neste novo projeto iremos abordar com crianças questões relacionadas ao hábito de poupar dinheiro, isto é, educação financeira. Outro projeto que está sendo startando com uma aluna minha da pós-graduação em Neuroeducação é um jogo associado às emoções. Na fila de espera ainda tem um jogo sobre evolução e seleção natural e outro sobre matemática e zumbis. Estou motivado e certo que temos muito trabalho a fazer.

Veja na galeria abaixo algumas fases que o Uba enfrenta nessa deliciosa (e perigosa) aventura.

Referência:

Alves, Fernando. O lúdico e a educação escolarizada da criança. (Im)pertinências da educação: o trabalho educativo em pesquisa [online], São Paulo, 2009. Disponível em: http://books.scielo.org/id/vtzmp/pdf/oliveira-9788579830228-04.pdf. Acesso em: 15/05/2016